sábado, fevereiro 06, 2010

Rui

O Rui tinha 9 anos quando apanhou uma bactéria rara que lhe afectou a vista. A princípio, ninguém notou. Só quando a professora mandou chamar os pais da criança, alegando que o seu melhor aluno mal conseguia distinguir aquilo que se escrevia no quadro, é que lhe foi diagnosticada uma falha na visão, com tendência a aumentar, e sem tratamento conhecido.

O segundo de 4 irmãos, num casal divorciado, a mãe com pouquíssimas posses e o pai praticamente ausente, o acompanhamento que teve foi aquele que se poderia obter pelo estado. Consultas no hospital com meses de espera, médicos de família no Centro de saúde e uma visão que diminuía a uma velocidade alucinante.

A largura das lentes aumentava, mas de pouco servia para Rui. Ainda assim, manteve, o mais possível, a sua vida normal. Para amigos e família, continuava a ser o Rui de sempre e, não raramente, era fácil passar por cima do seu "problema" e esquecer que ele não lia a legendas dos filmes, no cinema, não via realmente os belos olhos da vizinha da frente, nem lia os livros da escola.

Como era bom aluno, os professores deram-lhe todo o apoio e o Rui conseguiu um feito digno de orgulho. Acabou o décimo segundo ano, pois memorizava tudo o que ouvia e escrevia com letras gigantes, que os seus mentores corrigiam com paciência.

A determinada altura o Rui sentiu-se diferente e revoltou-se. Mudou-se para o sótão, onde passava noites acordado. Como resultado, aprendeu, sozinho, a tocar guitarra, e a filosofar sobre a vida.

A família do Rui tinha amigos nos Estados Unidos. A comunidade portuguesa que lá habitava uniu-se e juntou dinheiro para o levar lá, onde foi visto por especialistas. De pouco adiantou, pois o estado da doença era demasiado avançado. Soube-se, porém, que o Rui estava estável. Via muito pouco, mas provavelmente ficaria assim.

Quando regressou, o Rui estava diferente. Mais calmo, mais maduro. Ficara impressionado com o altruísmo das pessoas que o haviam recebido, que tanto lhe tinham dado. E queria fazer o mesmo. Nesse mesmo ano, ingressou numa Associação para Invisuais e começou lá a trabalhar. E conheceu aqueles que seriam os seus melhores amigos. Aprendeu braille. E percebeu que, para aqueles que não vêem o mundo como nós, os sentimentos são mais intensos, mais fortes, as palavras mais verdadeiras, as inflexões de voz mais perturbadoras.

O Rui tinha dois amigos. O Paulo e o Francisco, ambos cegos. Andava com eles para todo o lado, faziam férias juntos, brincavam uns com os outros. As pessoas de quem se sentia mais próximo. E havia a Patrícia. Conhecera-a na Associação, uma rapariga que lhe tocara o coração desde o primeiro dia, com a sua voz doce, a gargalhada cristalina, as confidências que lhe fizera. Conhecia-lhe o rosto, porque o vira bem próximo, sabia bem como era bonita. Mas não precisava de o ter feito. A alma da Patrícia era a coisa mais bela que habitava o seu ser. Estava completamente apaixonado.

Sonhava com o dia em que se iria declarar, com o primeiro beijo, com o entrelaçar de mãos. Sonhava com ela desde que acordava até fechar os olhos. E nunca o contara a ninguém.

Naquele tarde, sozinho no parque com o Paulo,estava prestes a contar-lhe o seu segredo. Mas viu o amigo triste e preferiu saber quais as suas angustias.
- Estou apaixonado pela Patrícia. - contou o Paulo, gelando a alma do amigo, sem ter como o saber. - Não sei o que faça, preciso de um conselho.

E o Rui aconselhou-o a falar com ela, dizer-lhe o que sentia. Quem sabe não fosse correspondido. E no seu coração, decidiu esconder os seus sentimentos até essa história se resolver.

Quando o Rui me contou esta história, numa noite tardia, entre os acordes da sua viola e o som da minha voz, a Patrícia e o Paulo viviam os primeiros dias de namoro, numa felicidade insaciável, e tinham-no acompanhado até minha casa.

- Como estás, como te sentes? - perguntei.
- Sabes, prima, as duas pessoas que eu mais amo no mundo estão felizes, apaixonadas e tenho ambas junto de mim. Jamais seria capaz de estragar isso. Nunca seria capaz de lhes ensombrar a a felicidade. Acredites ou não, estou tão feliz por eles como se fosse eu no seu lugar.

E eu soube que o meu primo, cuja história de coragem continua até hoje, cumprira o seu desejo de fazer o que pudesse pelos outros.

3 comentários:

ianita disse...

Estou neste momento a meio do "Invictus". Uma das coisas que mais me impressionou até agora é mesmo a capacidade de perdão, de altruismo dentro da alma de algumas pessoas. Pessoas como o Mandela, preso durante 27 anos. Todos compreenderiam se vivesse revoltado por lhe terem roubado 27 anos de vida. roubaram-lhe a oportunidade de ver os filhos crescer, roubaram-lhe a oportunidade de viver durante esses anos. E ele sai, 27 anos depois, é eleito presidente, e a sua mensagem é de esperança e perdão. De dar a outra face. De união...

Não haveria ninguém que não entendesse a revolta, se ele a sentisse. Como não haveria ninguém que não entendesse a revolta do Rui, contra a vida ou contra o Universo ou contra a injustiça ou a aleatoriedade de tudo... mas ele não a sente.

Acho que pessoas como o Rui são pessoas iluminadas. Pessoas raras. Eu acho que não saberia ser assim. Não digo que prejudique os que me rodeiam, longe disso. Mas acho que não conseguiria ficar imune à revolta. À injustiça. Entendes?

Parabéns ao Rui por ver mais do que eu.

Beijos a ti.

Pedro Branco disse...

Não sei que diga. Apenas dou sinal da minha passagem.

Mag disse...

Como bem sabes (porque me conheces, sem me conhecer), amei este texto.
É de um altruísmo impressionante, que não me atrevo a dizer seria capaz de partilhar. Gostava, um dia, de ter esta maturidade de emoções. Trabalho para isso, sem dúvida.
Obrigada por esta partilha que enche o coração.
E pela forma linda como a escreveste.
Beijo grande