quinta-feira, junho 04, 2009

Saudade???

Apoderou-se dela aquele sentimento, meio de aperto, meio de felicidade contida... e tudo o que queria era o cheiro da maresia quando começa a baixar, a brisa do anoitecer numa tarde de calor, o caminho silencioso dos raros momentos em que sabe onde colocar os pés... qual o seu trilho.

Aquele sentimento que, com alegria ou tristeza, não conseguiria ser quem é,sem a bagagem do tempo, o riso de infância, o Croco Fleuri, a viola na qual aprendera quatro acordes e que lhe davam para uma lista de mais de 15 canções, não é que as músicas dos anos 60 tem todas os mesmos acordes?

Sem a janela da cozinha, onde acordava de manha com o som de Bob Marley do vizinho, de gostos eclécticos, que passava em seguida para Alice Cooper e finalmente para Eric Clapton. O mesmo vizinho que, apesar de magrelas como um esparguete, se colocava estrategicamente em frente à mesma janela,de cueca branca,a escolher a roupa, enquanto ela e as amigas riam da visão. A verdade é que o tipo se vestia bem, e depois de se banhar em Axe Oriental e fazer aquele sorrisinho que usava para todas as ocasiões, até ficava com um charme muito próprio.

Sem o - abençoado! - por-do-sol de todas as tardes, que a fazia subir até à praia e sentir-se, chorar ou rir, escrever poemas, alguns deles bem apanhados pelas pessoas a quem os dedicava...
Sem as festas dos hambúrgueres que tanto a fizeram rir e chorar, bater nas amigas, perder-se na noite ou simplesmente embriagar-se até se sentir a flutuar.

Sem o baloiço, que agora já não existia, mas que permanece na memória, a cada vez que lá passa. O mesmo onde paravam - sempre - para uma voltinha, de madrugada, ao regressar a casa. Onde se escondera uma vez, perdida de amores, e depois se erguera, pensando "és uma mulher ou és um rato?", e toca de mudar de roupa, largar o vestidinho curto e feminino, colocar as calças de guerra e a velha t-shirt branca justa, para voltar à discoteca e dançar como se não houvesse amanha!

Sem elas, que tinham uma história parecida, vivências iguais, outros amores, dores contidas e gargalhadas sinceras? Com quem fizera promessas esquecidas pelo tempo,mas jamais pela memória.


Sem ela - que está sempre lá para o bem e para o mal - a sua companheira de aventuras, a confidente, aquele que sente as energias da mesma forma e sabe o que lhe vai na alma antes dela mesma o formular.

Seria alguma coisa igual sem aquelas vivências? Conseguiria hoje olhar,pensar, sentir, viver da mesma forma????

Talvez não fosse saudade, aquele aperto,mas uma gratidão tremenda pela generosidade da vida, pela sua capacidade de amar, de trazer para dentro de si tudo o que lhe pertencia e dar-lhe aquele valor...

15 comentários:

Kayla disse...

Foi das coisas mais lindas que já li por aqui.
Ainda por cima sei do que falas...não fugir das raizes.é muito importante.
emocionei-me...
:)

Lita disse...

Obrigada, amiga. As you know, saiu-me tudo direitinho do coraçao... :)

dinamene disse...

Lindíssimo! Adorei ler/sentir essa gratidão por seres quem és, pelo passado que a ti pertence!

Belo texto, sim Sra!
Beijos ;)

Lita disse...

Amiga,tinhas de ser tu a passar agora por aqui, nao é?:D
Momentos mágicos!!! Amo-te muito.

izzie disse...

Eu ia tentar dizer o que escreveste no último parágrafo... ou seja, está tudo dito, mais uma vez!
Parabéns por tudo... seja saudade ou gratidão... és tu e isso é que importa :)

Lita disse...

izzie,é verdade! Tudo o que trazemos connosco é uma parte de nós. Aquilo que filtrámos da experiencia. E é bom quando filtramos tanta coisa boa e transformamos até as pedras em diamentes!!! :)

Estreliña disse...

E é que escreves mesmo muito bem!

Parabéns!

*

;)

Sayuri disse...

Para alem de muito bonito, está cheio de serenidade!

Textículos disse...

Reparei agora que o meu post da Mercedes Sosa está em linha com este teu post.

Gracias al corazon...

Lita disse...

Estreliña, obrigada!!! :)

Sayuri, há dias mágicos... :)

Textículos, é verdade!:D

lilipat2008 disse...

É bom quando olhamos para trás e gostamos do que vemos...é sinal de que vivemos momentos únicos, momentos nossos e com os nossos, lugares onde fomos, apesar de tudo, felizes...é sinal de vida...:D

Gostei do texto...

bjitos

Lopes disse...

Fecho os olhos, estendo a mão para tocar... lembro os meus dias...

jah bless

Mag disse...

Nós somos a súmula daquilo que vivenciámos, agora, antes e outrora. O caminho que te trouxe até este momento é teu, faz de ti quem és e, só por isso, é especial.

Continua a guiar-te pelo teu coração (nem precisava dizê-lo, não é?)... és luz.

Beijo

steppebird disse...

estara o tempo esta na nossa mente? viajaremos nos livremente no tempo assim experienciando vivencias que ultimamente nos constituem como individuos atemporais e integros?

gostei mto do texto, mtos beijos e obrigado :)

Blogadinha disse...

Podes romper com o passado, que o inverso jamais acontecerá... e no fim de contas, faz todo o sentido.

Vives sempre e em cada passo que é sempre teu - porque a memória supera a existência.

Bem soube ler da tua.
Que nunca tenhas lapsos de memória!... Lol

Bjos