quarta-feira, novembro 12, 2008

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Fico estupidamente zangada quando o pseudo-quase-namorado da minha melhor amiga fica 2 semanas sem telefonar, quanto mais aparecer e raras vezes responde a mensagens. Durante horas a fio ouço-a e apoio-a, chamamos-lhe aqueles nomes próprios de quem está no papel de vítima e até rimos do assunto. Depois, do nada, ele aparece, age como se nada de errado estivesse a acontecer, e ela cede, adora, fica feliz com a presença dele e tem o desplante, no dia seguinte, de o defender "das minhas garras". Afinal, sou eu que não gosto do coitado!!!!

Sim, eu mereço!!!!

Assim como a outra amiga, que tem um casamento despedaçado desde, quase, o dia em que se casou - e já passaram 10 anos. Também me dá a visão de uma mulher que está presa a um homem com mentalidade de avô, que a prende em casa, não lhe permite respirar, não a trata com o carinho devido e a quem ela não pode pura e simplesmente largar, porque "a vida não é assim tão simples, tem 3 filhos e não é fácil para uma mulher sozinha, etc." Também a essa eu apoio, e ouço, e nem sequer entendo como é que ela permite que determinadas coisas aconteçam.

Mas vem o momento em que ela arrisca e pede um tempo, ele vai e, em menos de um mês, já arranjou outra, ela arrepende-se e ele volta para casa!

Mais uma vez, eu mereço!!!

Se calhar é esse o meu papel, enquanto amiga. Apoiar. Mas sempre com a consciência que as mentiras que contamos a nós mesmos, muitas vezes, servem como desculpa para acusar o outro. Que, provavelmente, nenhuma delas deixa bem claro, à outra parte, o que quer, quais as reais expectativas. Dizem-nas a mim, mas não a eles.

Muitas vezes, o outro age com base nas suas próprias expectativas e nas "mentirinhas" que deixamos que ele acredite, com medo de pagar o preço por aquilo que realmente queremos. E depois sofremos porque ele não faz aquilo que nós realmente queríamos que fizesse, mas não sabe, porque nós não lhe dissemos, com medo que ele não fizesse. (Sim, dito assim parece absurdo, mas existe por aí alguém que não tenha telhados de vidro? Eu não sou.)

A verdade é que as relações são uma dança, se damos um passo à frente, antes de ser a nossa vez, podemos pisar o outro. E se damos demasiados passos atrás, sem perceber que também temos de andar para a frente, corremos o risco de tropeçar nos próprios pés. Há uma fluidez nos compromissos daquilo que eu quero e do que o outro quer. Que são construídos lentamente. Mas também há momentos em que, se gostamos de salsa, não podemos continuar a dizer que não nos importamos de dançar tango. Até porque o outro pode gostar da dançarina de tango, mas nunca será suficiente, porque não conhece a dançarina de salsa, que é o que realmente somos.

8 comentários:

Ianita disse...

Adorei.

Tens toda a razão. Por que é que nos enchemos de meias palavras? Esperamos que o outro entenda e complete as nossas palavras, mas as pessoas não adivinham, temos de ser nós a falar. FALAR! Tão fácil e, vai daí, tão difícil...

Tive numa relação de porcaria por 6 anos e terminei quando me saturei e tenho pena de ter sabido algumas coisas só passados alguns anos, por pessoas que se dizem minhas amigas, mas que naqueles 6 anos nunca me disseram nada... O que eu não tinha dado por uma amiga a sério durante aqueles 6 anos... não teriam sido 6 anos...

Beijinhos

(insegurança... insegurança por nos mostrarmos dançarinas de salsa porque, pensamos nós, a salsa está fora d moda e ninguem vai gostar de nós se formos dançarinas de salsa... 1º temos de nos aceitar como somos, depois...)

Neptuna disse...

:) bem dito. o problema é quando se quer dançar QUALQUER coisa com alguém que está indeciso entre dançar.. ou ver a bailarina do lado!

ps: esse papel de apoio nessas situações, é tal qual como descreves. uma faca de dois gumes. LOL! como te entendo..

Lita disse...

Ianita, é verdade. Dizer o que queremos, por vezes, parece ser a coisa mais difícil do mundo. E também acho que todos nós já tivémos relações dessa. Por mim falo.

Neptuna, amiga, acho que querer dançar qualquer coisa é realmente o mais grave. Muitas vezes é essa falta de alinhamento que trás o dançarino indeciso. Até porque os atraímos a nós, não é verdade? :)

Neptuna disse...

Ora bem! disseste tudo.. só por causa disso vou comer outro kinder delice..!

kaila disse...

Concordo com tudo...

Lita disse...

Neptuna,looool!!!!
Kaila, no coments...

Nelson Alexandre Soares disse...

Mas que bem. Adoro a tua escrita. E adorei ainda mais a analogia entre as relações humanas e a dança. Nunca me acorrera nem nunca li semelhante, mas é realmente muito interessante e verídica até!


Quanto às tuas amigas, enfim. Eu acho que tudo mais não é do que falta de amor próprio. Tudo o resto vem por arrasto...


"(...)as mentiras que contamos a nós mesmos, muitas vezes, servem como desculpa para acusar o outro."
Esta é uma frase indescritível...


Stay Well

Lita disse...

Bem...muitíssimo obrigada. Acho que é a primeira vez que fico constrangida com um comentário.... :)

Concordo com o que dizes. Na maioria das vezes habituamo-nos a acreditar que merecemos pouco. E achamos que lá fora não deve haver muito melhor.

Já não tocando nas feridas emocionais de cada um. Não é fácil. Nao é. É possível. Acredito muito que sim!