segunda-feira, novembro 05, 2007
Silêncio, se faz favor!!!!
Permiti-me isso, a não elaboração mental (à qual, modestia à parte, sou muito boa!!!!). Abandonei por umas horas as explicações que me dizem tudo, me enquadram cada instante da existência, sem no entanto mostrar nada, pois o que se sente não tem explicação.
Fácil? É fácil abandonar a cana com a qual se apanha mais peixes? Não foi.
Ainda assim, silenciei-me com intenção.
E não sei se regressei mais inteira. Julgo que sim. Sei que regressei com os olhos abertos. Não me tinha apercebido, sequer, que os tinha fechados....
sexta-feira, novembro 02, 2007
Retiro
segunda-feira, outubro 29, 2007
O Poço das Sombras
Eu sei, eu sei... mas pura e simplesmente não consigo resistir. Saiu ainda há pouco, mais um daqueles livros que me leva para fora do tempo e do espaço, me faz esquecer do mundo lá fora e me acende uma pequena e (des)conhecida chama.
Memórias de fada? Alma de adolescente?
Talvez, mas faz-me sonhar e sorrir... e eu não resisto a nenhuma das duas coisas.... :)
sexta-feira, outubro 26, 2007
O elo quebrado
Se era fácil? Não. Ele tivera sempre o dom de viver perigosamente. Onde havia sarilhos, ele seguia o rumo.
Ela não. Era mais calma, serena. Abria-lhe os braços e escondia-o do mundo, quando tudo parecia dolorosamente insano.
Ela conhecia-lhe os pesadelos nocturnos, os pensamentos mais obscuros. Sabia ler-lhe as entrelinhas, os silêncios profundos, as fugas à realidade. Estava com ele. Amava-o. Sabia que o amor era construído assim, entre risos e lágrimas, entre sonhos conjuntos, degrau a degrau.
Existia um elo. Invisível para os outros? Talvez, mas ela sentia-o em cada instante em que os seus olhos pousavam nele.
Um dia ele partiu. Outro amor, outra aventura, outro perigo. Ela ficou. Só, destroçada. Irreconhecível.
Levantou-se. Mudou de casa. Mudou de vida. Ainda o sentia na pele, no bater do seu coração. Esperava que ele regressasse, como nos dias em que lhe abria os braços. Existia um elo invisível. Conheciam-se há 20 anos. Conheciam-se.
Ela fez anos. Passara os últimos 11 aniversários junto a ele. Só a ele. Existia um elo que era só dos dois. O telemóvel foi dando os apitos das habituais mensagens de parabéns. Agarrava cada uma delas como uma esperança, que se convertia em desilusão. O dia passou.
Despertou no dia seguinte com um "bip". Agarrou o telemóvel. Mensagem dele.
"Preciso que vás ao tribunal. Há lá qualquer coisa marcada, mas não consigo perceber o que é. Agradeço imenso. Adeus."
Fechou os olhos, rindo, para não chorar. Às vezes, não existia absolutamente nada.
Quase perfeito...
Passear pela Baixa de Lisboa.
Comprar um livro.
Ir ver o rio.
Ouvir-me.
Receber um elogio.
Ir beber um copo à noite, mesmo que seja a meio da semana.
Dormir depois de uma conversa intemporal.
Levantar-me com um sorriso.
Passar a manhã na Serra de Sintra, respirar a vida, re-criar-me.
Almoçar a salada mais deliciosa do mundo...
Encontrar uma amiga que não via há muito.
Deitar-me cansada e feliz.
...
E voltar hoje para o trabalho....
terça-feira, outubro 23, 2007
Parabéns!!!
Assim foi contigo. Tínhamos... quê? 12 anos? Faltámos à aula de educação musical porque tu estavas a chorar... e desde então nunca mais deixámos de chorar ou rir juntas...
Iniciámos uma conversa, nesse dia, e tenho a sensação de que quando nos encontramos pura e simplesmente a retomamos, ainda que por carta, telefone, ainda que não nos tenhamos visto nos últimos meses. Acho que os melhores amigos se reconhecem assim... :)
De qualquer modo, sei que foi um ano difícil... sei que perdeste tudo... sei que te tentas reerguer com uma dignidade que causaria inveja a muitos. A mim causa-me admiração e alegria por partilhar contigo esta história.
Sei que o sabes, minha amiga, mas as pessoas têm o estranho hábito de poupar nas palavras e nas emoções. Por isso, o quero dizer... GOSTO MUITO DE TI!!!!!!!
Parabéns e que os 32 sejam o princípio de uma nova e esplendorosa vida!
segunda-feira, outubro 22, 2007
Cansaço
Ando a sentir isso demasiadas vezes....
sexta-feira, outubro 19, 2007
Sobras
Indefinições
Ao longo dos anos apercebi-me, porém (e talvez seja defeito de profissão) de que nada é definitivo, muito menos as definições. Nada é absolutamente bom, ou absolutamente mau. Não existem escolhas certas ou erradas,mas sim pesos na balança de cada um de nós, que pendem para um lado ou para outro.
Apercebi-me de que as coisas que pedimos nem sempre estão alinhadas com as que queremos. E mesmo as que queremos, podem ser fruto do anseio do coração do adulto, ou da carência profunda da criança em nós. Tão ténue é a linha da separação. Julgo-me tantas vezes por não a conseguir discernir.
Faço o que posso para respeitar a alma em mim. Permito-a sentir, expressar-se, ainda que, por vezes, sem voz. Hoje,não me apetecia fazer isso. Apetecia-me não me preocupar com os anseios ou as carências, as ilusões ou as mentiras. Viver como se não existisse amanhã. Será que me daria ao trabalho de pensar tanto?
quinta-feira, outubro 18, 2007
Às vezes...
Às vezes queria abrir a boca para deixar sair o chorrilho de palavras não ditas, emoções não assumidas, gritos presos no fundo de mim.
Mas não chega.
Às vezes precisava que o outro me ouvisse, mais do que qualquer outra coisa. Precisava de ser validade pela presença de quem me dissesse: "Estou aqui. Também lá estive. Foi real."
Precisava que as minhas fantasias tivessem ecoado em alguém. Que o sonho fosse partilhado, para poder deixá-lo partir...
O sacana do Neptuno anda aí, tenho a certeza!!!!!!
O "poblema"
- Se precisares de alguma coisa, estou mesmo aqui ao lado.
30 segundos depois.
- Mamã, se eu tiver um "poblema", posso ir para a tua cama?
- ... Sim, podes. Até amanhã.
30 segundos depois.
- Mãe... tenho um "poblema". Ainda não consegui dormir nada.
Sem comentários.
quarta-feira, outubro 17, 2007
O pescador
- O ti Vicente tem mão d'ouro, para onde manda a cana, é onde eles fazem a festa.
Aqueles homens, enfiados nos gorros de lã, camisas de xadrez em flanela e botas de borracha até ao joelho, pareciam-lhe mais fortes do que os herois dos quadradinhos. Todos os dias enfrentavam o gigante azul, em busca de sustento para a família. Onde existiria maior nobreza?
Foi numa tarde ventosa de Novembro que o barco encalhou na rocha e se virou, jogando os homens ao Mar e, juntamente com eles, o pequeno Vicente, que decidira acompanhá-los.
Não houve perdas, nem feridos. No entanto, os segundos sentidos como anos, passados a esbracejar, para depois vir ao de cima e encontrar o barco virado sobre a sua cabeça, enclausurando-o na mais completa escuridão, encheram de terror o pequeno, que se convenceu de que morrera, antes dos braços fortes do ti Vicente o resgatarem da água e do pesadelo.
A partir desse dia jurou que não morreria no mar e não mais se aproximou deste, dos barcos de pesca ou das camisolas do padrinho. Ouvia as histórias dos homens,mas longe da praia.
A pesca era agora um sonho longínquo, como aqueles dos colegas de escola, que queriam ser astronautas, sabendo de antemão que não passariam do 6º ano.
Passaram-se os anos e Vicente tornou-se um homem. Saiu da escola e foi trabalhar com o pai, na loja de ferragens,seguindo as pisadas dos dois irmãos mais velhos. Era um bom trabalho, honesto, simples, sem a instabilidade da pesca ou dos mares de Inverno. Então, porque é que o seu coração, às vezes, parecia tão vazio que quase não o sentia?
Visitou o ti Vicente, que já não ia ao Mar há muito, num Verão quente e seco, daqueles em que a chuva viaja para longe sem bilhete de regresso. E o pedido do velhinho comoveu-o.
- Leva-me a ver o Mar, filho. Sabes que sozinho já não consigo.
Vicente agarrou no padrinho cambaleante, envolveu-o nos seus braços fortes e, em curtos passos, caminharam até à rocha,de onde se via o Mar.
Foi um instante em que ele olhou para cima, seguindo o voo das gaivotas. Baixou a cabeça e o ti Vicente desaparecera. Caíra, atirara-se, voara? Debruçou-se e viu o velhote esbracejando, a cabeça surgindo entre a espuma branca, numa busca desesperada de ar.
Vicente jogou-se de cabeça, sem se preocupar com nada que não aquele velho ti Vicente, que lhe iluminara a infância.
Ajudou-o o chegar à areia. Vinham os dois sorrindo. Teria o velho feito de propósito? Vicente não o poderia saber? Aquele mergulho, porém, trouxera de volta os seus sonhos.
Hoje sinto-me assim...
segunda-feira, outubro 15, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
Revolvio
Porque fue suficiente
hablarle con los ojos desde allí.
Si en ese mismo instante
su vida era tranquila y feliz,
la vino a revolver con bollitos y miel
Mareas en la tierra,
el cielo iba cubriéndose de gris.
Porque salió el torrente,
el miedo y las ganas de sentir.
Y quiso saborear la masa de su pan.
Revolvió su calor con su voz,
con leche y azúcar se lo dio a beber.
Bordeó el corazón la razón con unos besos de ron y miel.
Horneó con su aliento su pelo,
y caramelo parecía al terminar.
Y quiso saborear la masa de su pan.
Escríbele canciones,
envíale tu voz donde él esté.
Vagando por su almohada
le vino a visitar en sueños él.
La vino a revolver y se dejo hacer.
Estampidas en la tierra,
el cielo iba tiñéndose marfil.
Porque brotó el torrente,
el verbo y las ganas de sentir.
Y pudo saborear la masa de su pan
Él revolvió su calor con su voz,
con leche y azúcar se lo dio a beber.
Bordeó el corazón la razón con unos besos de ron y miel.
Horneó con su aliento su pelo,
y caramelo parecía al terminar.
Y pudo saborear la masa de su pan
Vida
Dito assim, até parece simples, não é? :)
quinta-feira, outubro 04, 2007
Ai, Portugal, Portugal...
Mas quando temos a filha pequena doente, acordamos de madrugada para marcar a estúpida consulta no Centro de Saúde (se é uma urgência,porque raio temos de nos levantar de madrugada para marcar a consulta ao longo do dia? É uma urgência!!!!!) e nos dizem que, como não sabem se o médico vem ou não (ele tem o hábito de faltar ao trabalho sem avisar!!!!????) não marcam consultas, até porque não há outros médicos para urgências....
- Ligue por volta das 13h30 e já sabemos se ele veio ou não. Depois,se houver vaga, marca.
???? O que raios é isto?
E pedem-nos para ir ao Centro de Saúde antes de ir ao hospital....
O mais triste é que um telefonema para a pediatra (aquela a quem pagamos 70 euros por consulta) resolveu a coisa em 10 minutos. Consulta marcada, conselhos dados, problema resolvido.
O que nos vale é que o sistema de saúde em Portugal continua em grande!!!!! Para quê pensar nos milhares de pessoas que não têm 70 euros para pagar e ficam com as crianças doentes,ou rumam para o hospital para esperar horas até serem atendidas, pois não tinham a cartinha do Centro de Saúde????
segunda-feira, outubro 01, 2007
Ser Criança
Para quem, como eu, alega um aproveitar intenso do presente, um auto-conhecimento consciente como forma consistente de atravessar esta existência, tenho em casa um ser com 3 anos de existência que é uma verdadeira mestra do AQUI e do AGORA.Depois de uma noite de febre, acordámos para um dia em que - pensava eu – tudo iria melhorar! Então vieram as dores de ouvidos, as fantásticas dores que surgem nos piores momentos e para as quais basicamente NADA ajuda.
Ligar à pediatra, continuar o antibiótico,não esquecer o benuron. Enfim, encher a criança de porcaria e a mãe de preocupação.
A diferença é que, enquanto a mãe mal consegue respirar o tempo todo, perante a sensação de impotência, a preocupação e a ansiedade, há um momento, a meio de toda esta “tragédia”, em que as dores acalmam e começa a dar no Canal Panda (canal exclusivo cá da casa) a música do “Viky, o pequeno golfinho” – não, não precisam de saber qual é!!!!.
- Mãe, podes dar-me os meus sapatos?
- Porquê, meu amor?
- Quero dançar!!!
E eu fui calçar-lhe os sapatos, fitando-a atónita enquanto ela cantava e dançava até a música acabar. Em seguida, voltou a deitar-se no sofá, tranquila. Não há dores, não há stress.
De facto, ser criança é um estado de graça. Elas SABEM aproveitar a vida.
quarta-feira, setembro 26, 2007
The Police
segunda-feira, setembro 24, 2007
A caixa

Soube imediatamente o que tinha nas mãos, quando agarrei aquela caixa antiga e gasta pelo tempo, perdida entre albuns de fotografias repletos de teias de aranha e pó, no velho sotão revestido a madeira da casa grande, como lhe chamávamos.
Não era como eu imaginava, em veludo vermelho, reluzente, como o esplendor do seu conteúdo, contado tantas vezes pela voz da minha avó, cujos olhos cansados regressavam ao brilho dos 17 anos, sempre que falava nessa história.
Era uma história igual a todas as histórias que fazem as meninas sonhar. Um amor antigo, único, perfeito, que não se concretizara, perdido nas desventuras habituais do coração. E que, antes de se desvanecer,tivera os sumarentes beijos escondidos, bilhetinhos secretos, abraços quentes nas noites de luar e, claro, as rosas vermelhas.
Apertando a caixa, que afinal era em metal, com desenhos antigos de dois amantes, apagados pela ferrugem, eu fechei os olhos, relembrando as palavras da minha avó.
- Com ele partiu o meu coração e a minha juventude. Ficou uma caixa, com um retrato que me fez, 2 cartas de amor, e 6 rosas vermelhas. E a vida continuou.
Cresci com a lembrança daquele amor único, que não era o meu, mas que me arrebatava o coração para a fuga nas noites de luar, como se os beijos escondidos debaixo da janela fossem para mim.
Agora, com aquele tesouro nas mãos, sabia que tudo fora verdade e não mais um devaneio de uma velhota senil que, segundo o meu pai, nada mais fazia que não encher-me a cabeça com ideias aparvalhadas que me paravam o cérebro.
Quis abri-la. Cheirar o perfume do amor, nas rosas vermelhas, e ler cada carta como se a doce carícia das palavras ardentes fossem dirigidas a mim. Olhar o retrato da minha avó, cujos traços haviam sido desenhados pela mão da paixão avassaladora e deleitar-me no encanto das memórias.
Mas não era a minha história. Não eram os meus segredos, as minhas fugas da cama para os braços do meu amante. Não era o meu rosto desenhado. Não eram as minhas rosas.
Eu abriria uma caixa velha e encontraria, provavelmente, um rolo de papeis amarelados e baços, comidos pelas traças e pelos anos. Encontraria um retrato cujos contornos teriam sido esquecidos no papel. E encontraria rosas secas, sem a cor e a frescura do amor.
Abrir a caixa? Não. Mantê-la assim, fechada entre as minhas mãos, de olhos fechados, ouvindo as ternas palavras da minha avó e inspirando o aroma das rosas. Nessa memória,estaria a essência do seu amor.
segunda-feira, setembro 17, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
Perspectivas...
- Não posso acreditar que me fez uma maldade dessas, avó Chica!!!! - exclamou zangada.
A anciã, que já era velha quando Clara nascera, encolheu os ombros. Baixou o olhar, embaraçada, enquanto sacudia pó inexistente do avental gasto.
- O que é que queres, filha? O rapaz anda desesperado,não pensa em mais nada senão em ti.
- E por isso encomenda-lhe feitiços!!!! - resmungou a jovem. - Se ele pensa que isso muda alguma coisa...
A avó Chica olhou-a com expressão reprovadora e continuou o seu caminho.
Clara voltou para dentro, ainda furiosa e triste com a situação. Porque é que todos a recriminavam? Não poderia ser ela a dona do seu destino?
... cheiro de caramelo

Era assim o Verão na Ilha de Faro. Nada de silêncio,maresia e paz. Ali, ouviam-se os 718 aviões diários, que levantavam vôo à distância de 3 km, o roncar ensurdecedor dos carros,à hora do almoço, com lisboetas de férias à cata do famoso arroz de lingueirão e os gritos incessantes dos meus amigos, surgindo na porta de entrada, a cada 15 minutos.
Só à noite, quando o resto do mundo se recolhia, ficava eu e a minha avó, o som da novela da televisão a preto e branco e o cheiro do caramelo que serviria de cobertura à tarde de amêndoas. Que saudade da tarte de amêndoas!!!!
quarta-feira, setembro 12, 2007
Filhota....
O meu coração é que se manteve triste o dia todo....
sexta-feira, setembro 07, 2007
Loucura
Abriu os olhos, com as cortinas ainda fechadas e a suave penumbra do quarto a inundar-lhe os sentidos com pequenos pontos luminosos. Olhou para o lado onde, na pequenina mesa de cabeceira redonda, repousavam os poucos comprimidos que restavam, velhos companheiros de viagem. Pegou na caixa de cartão e ficou imóvel, a mão no ar, estática, perante o pensamento que lhe trespassou a mente. Não, nesse dia não os tomaria.Como seria voltar a pensar por si mesma? Sorriu, perante a ideia de se passear pelas ruas da cidade, com as meias de vidro rendadas a surgir por baixo do minúsculo vestido azul, dizendo tudo o que lhe surgia na mente.
Provavelmente, todos se afastariam, franzindo o nariz. Sim, porque ouvir a loucura pela manhã faz, por certo, comichão no nariz. Mas estava plenamente decidido.
Tomou um duche e aprontou-se como se para uma festa. Abriu a janela, permintindo ao vento fazer-lhe festas no cabelo.
As nuvens cinzentas anunciavam um dia instável e escuro. Dia de guarda-chuva, diriam os outros. Sorriu novamente. Ela, se levasse algum, seria um guarda-chuva de chocolate. Nessa manhã, a vida sabia-lhe bem...
quinta-feira, setembro 06, 2007
Palavras a cores?...
Colocava sempre a saia de folhos amarela. Penteava os sedosos caracois e prendia-os com ganchos coloridos. Só depois de se olhar ao espelho subia para o telhado. Sentava-se entre as telhas laranja, com o seu sumo de frutas gelado e ficava a observar o campo verdejante e fresco, cheio de papoilas.Por vezes,a música na igreja fazia-a sorrir,imaginando o casal de noivos a sair ao som dos sinos, juntamente com os alegres convidados, num rebuliço total.
Era uma festa, poder deitar-se ao sol e sentir a pele bronzeada a aquecer e os folhos da sua saia dançando com o vento. Se fechasse os olhos e imaginasse um sonho, ainda assim não seria mais belo do que a sua realidade.
...ou a preto e branco????
A noite começava a surgir e o cinzento escuro e frio da tarde enregelava-lhe os ossos velhos e cansados de uma vida de trabalho duro.Saiu para a rua,com o casaco russo e as botas enlameadas,embrenhando-se na rua alcatroada e suja,iluminada pelo fraco e único candeeiro existente.
Os prédios em obras inacabadas,cheios de lixo e solidão, pareciam caveiras naquela cidade fantasma.
segunda-feira, setembro 03, 2007
O Ludo
Era sempre uma viagem quente. Essa era a minha mais forte lembrança, ao recordar-me daquelas intermináveis viagens ao Ludo.
acabavam inevitavelmente por se deixar cair, logo que avistavam a mais pequena sombra.sábado, setembro 01, 2007
Com um pedaço...
Com um pedaço de nada brinquei.Olhei-o, toquei-o, cheirei. Mole e suave. Odor? Não tinha cheiro, ou seria eu incapaz de o respirar? Senti-me, insegura, menina assustada. Ainda assim, brinquei. Peguei-lhe, num suave embalo de vida e cor.
Moldei-o nas minhas mãos, pintei-o com as cores da minha tela. E, por fim, adormeci, na maciez efémera da minha imaginação.
Despertei mais tarde, acordando para um nada que agora era algo. Modelei-o eu, mas surgia em si mesmo como uma única forma, uma ideia, um universo ao meu redor.
Senti-me fechada num universo que tinha sido construido por mim.
sexta-feira, agosto 31, 2007
Vem!

Vem ver-me, vá! Como podes ver, pela imagem, não é tão mau assim. Tens a Serra mesmo ali, a um piscar de olhos.
Sabes, aqui o céu não é tão escuro e as estrelas não são tão brilhantes. Mas se te aventurasses a sair do teu cantinho seguro verias que, aqui, as pessoas sorriem da mesma maneira e que o aroma do café, pela manhã, trás sempre um trago de boa conversa. Não queres experimentar?
segunda-feira, agosto 27, 2007
Sonho
A beleza é relativa e efémera,mas naquele único segundo não houve inseguranças ou questões de opinião. Olhar para ele era pura contemplação. Poderá um olhar mudar uma vida? Ela não podia saber,mas como a imaginação não aceita limites, acreditou naquele instante, naquele segundo de harmonia, vida, cor.
Mergulhou no olhar verde daquela estranha criatura surgida do mais insólito dos seus sonhos. Viu-se no mar, rodeada de sereias e tritões, de castelos submersos e música celestial. Viu-se a si mesma Senhora do Mar, dona do mais belo vestido existente no reino do amor.
E, por fim, veio à à superfície respirando a brisa leve que a trazia de volta à realidade. Mas o que é que isso importava? Enfeitou-se com o seu mais belo sorriso e deu por si a dançar, diante daqueles maravilhosos olhos verdes.
Escrita Criativa
Estou a gostar! Muito...
Vão ficando aqui alguns textos nascidos dessas pequenas horas.
Se quiserem experimentar, passem por aqui.
quinta-feira, julho 19, 2007
Férias!!!!!
segunda-feira, julho 16, 2007
sexta-feira, julho 13, 2007
5
quarta-feira, julho 11, 2007
Pé descalço!!!!
O que nós, mulheres, não gostamos que nos aconteça....Sair de casa todas apresentadinhas para a consulta que vamos dar.
Ir com alguma antecedência, afinal não quermos que o trânsito nos surpreenda.
Chegar 20 minutos antes, e pensar, com um sorriso, se passeamos um pouco pela baixa de Lisboa, se repensamos a consulta, ou simplesmente nos presenteamos com um belo instante de não fazer nada.
Ao sair do estacionamento subterraneo, pisar a sandália e parti-la! Partir a tira onde se enfia o dedo!!!!
Entrar em pânico, voltar para trás, verificar que o pé não fica preso. Não conseguir arranjar a sandália.
Caminhar ao longo da Rua Augusta, arrastando um pé, até localizar a primeira sapataria onde se possam comprar QUAISQUER sapatos.
Imaginar, no meio da vergonha, que se fosse descalça, provavelmente, daria menos nas vistas.
Enfim, mais um final de tarde calmo e rotineiro!!!!
O escritor
O romance que escrevi chama-se “O maior espectáculo do mundo”, publicado pela Oficina do Livro. Vi-o hoje, antes de ir para as livrarias. Já suspeitava que a publicação de um livro seria uma experiência contrária à sua execução. Terminar um livro, acabar o trabalho e publicá-lo é o fim de um processo, é algo que se opõe à luta de pensar, de estruturar, de escrever, de corrigir, de apagar. O objecto com capa, foto, excertos, é outra coisa qualquer, necessária, lógica e inevitável. É certo que quero publicar, que quero que as pessoas leiam, mas sempre que olho para esse objecto apetece-me mudar palavras. Não posso.
Perdi-me nas suas palavras, talvez por já as ter pensado muitas vezes. Quando escrevemos, a alma exprime o que sente e nada mais do que isso é possível (como se fosse pouco!!!!).
Mas, invariavelmente, é um processo, um contínuo... nunca termina, nunca está acabado. Cada vez que releio o que escrevi, sinto a incansável vontade de mudar palavras, acrescentar texto, especificar pormenores. Porque a minha alma já viveu mais um pouco e precisa, novamente, de alimento.
Um contador de estórias desenrola um fio que não tem ponta....
Imagino a alegria e a dor do escritor que edita o seu livro. O orgulho da sua obra finalizada e partilhada com os outros. A dor da alma, por não mais se poder expressar por ali...
terça-feira, julho 10, 2007
A perfeição

segunda-feira, junho 18, 2007
O administrativo

quarta-feira, junho 13, 2007
Sol!!!!
Acordei com um sol luminoso, o céu azul a lembrar-me um Verão prestes a rebentar... soube bem um despertar cheio de luz e promessas sussurrantes de alegria.Pouco depois surgiu o vento, e as núvens... se calhar não é hoje, ainda, que o calor chega...
Não importa, o sol ficou dentro de mim!!!! Um dia luminoso para ti!
quarta-feira, junho 06, 2007
O Tao do Pooh
Aqui fica uma canção do Pooh, para nos deliciar:

quinta-feira, maio 31, 2007
sexta-feira, maio 11, 2007
Os dias em que não apetece...
Surgem do nada. Ou na verdade, sinto-os caminhar na minha direcção antes de chegarem. Correm-me no sangue, sussurram-me na brisa fresca da manhã, avisam-me no cansaço seguido das rotinas.
Mas não lhes ligo, porque tenho a mania que sou forte e que dias destes não me incomodam. Porque penso que posso controlar o meu sentir, o pulsar da vida em mim, e ainda assim viver na íntegra.
Chegam então de rompante... acordo mergulhada neles como insecto numa teia de aranha. Invadida.
Os dias em que não apetece sair da cama.
Não apetece ser forte.
Não apetece seguir sem destino, trabalhar sem motivação, acreditar sem fé.
Não apetece continuar a viver segundo o que pensamos acreditar, e manter o que é seguro, constante, confortável.
Os dias em que - ainda que dentro da segurança dos lençois - nos atrevemos a mergulhar no frágil, inconstante, intemporal e intenso sentido da existência.
quinta-feira, abril 19, 2007
O convite

Não me interessa se a história que me contas é verdadeira. Quero saber se consegues desapontar o outro para seres verdadeiro contigo mesmo; se consegues suportar a acusação de traição e não atraiçoares a tua própria alma. Quero saber se consegues não ter fé e, ainda assim, ser digno de confiança. Quero saber se consegues ver beleza mesmo num dia não muito bonito, e se consegues alimentar a tua vida da presença de Deus. Quero saber se consegues viver com o erro, teu e meu, e mesmo assim ficar de pé à beira de um lago e gritar à Lua prateada, "Sim"!
Quero saber se, depois de uma noite de dor e desespero, exausto, dorido até aos ossos, consegues levantar-te e ocupares-te das necessidades das crianças.
Não me interessa quem és, como chegaste aqui. Quero saber se permaneces no centro do fogo comigo sem te ires embora.
Quero saber o que te sustém interiormente quando tudo o mais cai à tua volta. Quero saber se consegues estar só contigo mesmo; e se verdadeiramente gostas da tua companhia nos momentos vazios"
(O Convite, de Oriah Mountain Dreamer)
sexta-feira, março 30, 2007
sexta-feira, março 16, 2007
...
Ouvi esta história muitas vezes e, se bem que tivesse presente a ilusão da coisa, muitas tardes de Verão fechei os olhos, no momento-chave, e juro quase ter ouvido esse impressionante som. Depois sentava-me na praia, escrevendo palavras que esperava não serem vistas por mais ninguém, mas que tinham de sair de alguma forma.
Noutros dias, dava passeios à beira-mar, maravilhando-me com a cor... o laranja vivo da areia, os tons roza e cinza do céu. Era um momento de plena harmonia e equilíbrio, estivesse eu só ou acompanhada.
Foi só quando os meus passeios começaram a ser nocturnos e a Lua o foco da minha deambulação à beira-mar, que as coisas se confundiram.
O mar, escuro e não definido, o som das ondas a bater na areia... os pontinhos brilhantes que vemos, quando raspamos a areia molhada, como estrelas minúsculas a brilhar aos nossos pés.
O cheiro a maré, a algas, à noite misteriosa. O vento quente que me invadia, enquanto procurava a tua essência, que nunca surgiu.
- Não se sabe bem qual é um e qual é outro. - ouvi dizer uma vez.
E nunca mais me esqueci...
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Relatividade

quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Desafio
Perguntas de retórica

Porque é que quando passamos pelos outros na rua perguntamos "Tudo bem?" e continuamos a andar, em vez de um simples "Olá"?
O que aconteceria se, quando ligamos para a linha de apoio ao cliente de qualquer rede de telemóveis do mercado e nos perguntam o nome, e se estamos bem, começássemos a desabafar todos os nossos problemas?
Será que se sonharmos uma série de vezes com determinada pessoa, podemos dizer que é a "pessoa dos nossos sonhos"?
domingo, janeiro 14, 2007
Parafraseando...

quinta-feira, dezembro 28, 2006
Às vezes esqueço-me...
...do quão pequenina sou neste universo. quarta-feira, novembro 29, 2006
Mórbido
É digna de blog. Aqui vai:
"Quando te sentires verdadeiramente num buraco, pensa que, pelo menos, ainda não te estão a mandar terra para cima."
LOL
segunda-feira, novembro 20, 2006
Existências...

Há acontecimentos na vida que, em questão de segundos, tornam todas as nossas prioridades simples, óbvias e inequivocas.
Passamos dias e semanas, e anos e repensar as nossas escolhas, a tentar perceber o que é que é importante. Algumas coisas são mais importantes que outras, é claro. Mas no dia a dia, nem sempre as tratamos como se fossem assim tão importantes. Elas estão lá.
Então, um dia, numa questão de segundos, olhamos para o lado e a nossa filha de dois anos - que estava ali AGORA mesmo - não está ali. É um sábado de Novembro e, estupidamente, estou dentro de um Centro Comercial.
Não há descrição para os minutos que que passam a seguir.
Para a correria de um lado para o outro, para a mente a tentar lutar contra si propria, para não imaginar os piores cenários possíveis. Para o instante em que pedimos a protecção de Deus, do Anjo da Guarda, ou seja lá de quem for. Para o momento em que vejo a minha vida a passar-me diante dos meus olhos e percebo que nada tem sentido sem a presença desta serzinho que tanto mudou a minha existência.
Para o momento em que me dizem que foi encontrada e em que ela chega de mãos dadas com o segurança, a comer a sua bolacha, super descontraída e me abraça porque acha que estou preocupada.
A sua visão do mundo é tão segura que não se assustou, achou normal o "sinhô" ter ido buscá-la, diz que estava à minha procura. Confirmou as suas crenças de segurança no mundo.
Eu apertei-a nos braços, tentei sair dali o mais rapidamente possível e de repente todos os meus problemas existenciais pareciam nada perante a grandiosa oportunidade que a vida me deu de ter esta criança, de partilhar com ela...
Tudo aconteceu em menos de 10 minutos e sinto que perdi vários anos de vida. E que não tenciono perder mais nada.
segunda-feira, outubro 30, 2006
...
É estranho, quando surges assim do inesperado, do incontrolável. Ainda não percebi se é agradável ou assustador.
Abri com cuidado, não fosses tu entrar de rompante, levando atrás tudo aquilo que me esforcei tanto por guardar.
Sorriste, pediste licença, sentaste-te em cima da antiga arca da minha avó.
Quiseste um café.
- Mas... tu não bebes café!!!
Sorriste de novo.
- Estou no teu sonho, posso fazer tudo aquilo que te agradar. Como saborear um café contigo.
Bebemos o café em silêncio, olhos nos olhos. O aroma da bebida somado à cor dos teus olhos... o que poderia haver para dizer???
Depois despediste-te e, à porta, olhaste-me de novo.
- Volto quando me quiseres aqui.
- Acho que não vou querer, sabes?
De novo o sorriso.
- Volto então, quando me apetecer...
terça-feira, outubro 03, 2006
Letting go...

O Leão e o Rio
"Depois de atravessar grandes chuvas, o leão foi confrontado com o ter de atravessar o rio que o cercara. Nadar não fazia parte da sua natureza, mas era forçado a fazê-lo se queria sobreviver. O leão rugiu e investiu contra as águas do rio que quase o afogaram antes de ele recuar. Foram muitas as vezes em que tentou a travessia deste modo, mas em todas elas fracassou. Exausto, o leão deitou-se e foi quando se acalmou que ouviu o rio dizer:
- Nunca lutes contra o que não existe.
Cautelosamente, o leão olhou à sua volta e perguntou:
- O que é que não existe?
- O teu inimigo - respondeu o rio. - Tal como tu és um leão, eu sou apenas um rio.
O leão então sentou-se muito tranquilo, a estudar o curso do rio. Passado algum tempo, dirigiu-se ao ponto em que a corrente fluia para a margem e, a deixar-se levar por ela, flutuou até ao outro lado."
in "Não leve a sua vida tão a sério"
quinta-feira, setembro 07, 2006
Minh'alma de sonhar-te anda perdida...

Desde há meses que as relações à minha volta andam a ruir. Depois voltam à homeostase... e continuam a ruir...
Na verdade, isso acontece desde que me conheço por gente, somente há meses comecei a ter algum "interesse científico" na coisa.
O ser humano é um ser curioso, estranho, com um potencial fantástico e uma capacidade de se enganar a si próprio maior do que seria possível imaginar... e no Amor, a coisa não poderia ser mais assim.
O Amor é algo que me fascina (DAH!!!!). O amor, as relações, as dependências, o querer estar sem estar, o não querer estar e estar....
Ontem, a Bisturi e eu falávamos sobre o assunto e chegámos à brilhante conclusão de que estamos sempre a tentar mudar quem o outro é, na esperança de não nos confrontarmos com que acreditamos ser, mas não somos. Utilizando as palavras da minha querida amiga, isso é uma "fricalhice" do caraças. Não estou a falar "dos OUTROS". Eu própria, não poderia ser mais assim.
Temos uma auto-imagem idealizada, de como seria a relação perfeita e do papel perfeito que teríamos nessa relação. Como amaríamos o outro, como ele nos amaria a nós, o que seria suposto acontecer, o que não permitiriamos que acontecesse.
De repente, a relação não é perfeita e o outro não encaixa nada naquilo que tinhamos guardado para ele.
E tentamos desesperadamente mostrar-lhe o quanto é errado ele ser quem é. E quando não o convencemos disso, é terrível termos de confrontar-nos com o facto de nós próprios não amarmos da forma perfeita, permitirmos o que antes não permitíamos, e só nos conseguimos aguentar à bronca dizendo que o culpado é o outro.
Poderíamos sempre ir embora sendo quem somos e procurar outro que fosse quem nós queríamos, não é? Mas não vamos... e se vamos...muitas vezes a alma fica lá, presa naquela forma, naquele instante em que queríamos que o outro fosse quem não era.
Fácil falar... fácil escrever sobre aquilo que o mundo inteiro se dedicou nos últimos séculos. Sim, ao que dizem, o amor romântico é coisa recente.
Há algo em nós que não larga, não larga a forma. Nem sequer é o outro, é a forma como amámos o outro quando acreditámos que ele era quem nós queríamos. É o medo do vazio. É preferível encher essa emoção com infelicidade, parece menos doloroso, paradoxalmente. É mais fácil morrer de amor do que viver desistindo dele.
Será isso Amor? Eu não sei. Dizem que só nos apaixonamos por nós próprios e a paixão morre,quando vimos no outro a sombra que também somos. Uma coisa é certa... é tão fácil perdermo-nos no turbilhão de emoções dessa viagem. É tão fácil não querermos sair de lá.
"Minh'alma de sonhar-te anda perdida,
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és, sequer, razão do meu viver
Pois tu és, já, toda a minha Vida.
Não vejo nada, assim, enlouquecida.
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida.
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa."
Quando me dizem isto, toda a graça
De uma boca divina fala em mim.
E, olhos postos em ti, digo de rastos
"Ah!Podem voar mundos, morrer astros
Que tu és como Deus, Princípio e Fim."
Florbela Espanca
terça-feira, agosto 08, 2006
Sínteses

"Não podemos resolver um problema no mesmo nível de consciência que criou o problema."
Albert Einstein
E, se não estou em erro, também o autor de: "Estupidez é fazer o que sempre fizemos na esperança de obter resultados diferentes."
E faz algum sentido, não?
Diz-se que a síntese é quando se faz o salto de consciência para um degrau acima, fazendo a triangulação entre a tese e a antítese.
À síntese e a novos desafios!!!!
Que os velhos já morreram e ninguém deu por isso...
No início era o verbo...

Se a imagem vale mais que mil palavras, sem dúvida que a escrita materializa a palavra e a torna palpável, leve ou pesada, áspera ou suave ao toque, doce ou amarga.
Escrever pode ser um escape, uma catárse, uma maldição dos sentimentos.
Escrever pode dar um tom mais sépia à nossa rotina cinzenta. Para mim, serve-me como combustível onde me alimento, onde me desgasto.
Posso criar mundos com a palavra escrita, renasço neles sob a forma que me convém, transmuto-me e refaço-me de acordo com o que preciso. Posso dar cor ao pormenor, trazer ao de cima a partícula do momento que o tornou eterno e imortalizá-lo numa folha de papel. É um poder que se manipula, utiliza, se sente.
Mas não se controla.
Há aquelas alturas em que é a escrita que nos surpreende, é ela que acorda em nós pedaços adormecidos de memória, retalhos de sentimentos bolorentos e escondidos...
... como se o seu poder fosse tão imenso que perfurasse directo o tempo e o espaço - tornando-os inexistentes - e acordasse em nós instantes imutáveis de vida.
Sou esmagada por esses instantes, mas não deixo de brindar aos milagres da vida, por nos trazerem sempre de volta à verdade...
sábado, agosto 05, 2006
O pôr da Lua

Deitei-me tarde. Seriam 2, 3 da manhã? Não me recordo, mas era tarde, porque a noite eu tinha-a vivido intensamente. Tinha rido, bebido, dançado, cantado. Tinha sonhado acordada com os teus olhos e tu olhavas-me, deixando um sopro desse sonho na minha pele.
Por isso estranhei quando bateram na porta. Geralmente, a essa hora da noite tudo o que havia eram as vozes de outros que regressavam a casa, depois de noites mais longas do que minha. Ou o silêncio envolvido pelo barulho das ondas na praia.
Fui abrir a porta. Na minha mente não surgiram medos de estranhos, de assaltos... não existiam essas preocupações, na praia ou no meu ser.
Eras tu.
- Já alguma vez viste um pôr da Lua?
Pegaste-me na mão antes que tivesse tempo de responder-te e arrastaste-me passadeira acima, até ao banquinho verde. O meu banco da praia.
E foi aí que vimos um esplendoroso pôr da Lua. A Lua Cheia mergulhando suavemente no mar, numa noite quente e escura, com um imenso mar de estrelas por cima de nós.
Nada mais disseste. Eu sabia que a tua ligação com a Lua era forte e teres vindo de propósito partilhar esse momento comigo dizia-me muito mais do que qualquer das tuas palavras teria transmitido.
Viemos de volta, disseste até amanhã e foste-te.
Nunca te agradeci a forma como demonstraste ter gostado da minha companhia nesse Verão.
Obrigada.
quinta-feira, agosto 03, 2006
Estar ou não estar....

Há dias destes... em que, por mais que procure, não estou em parte alguma. Pura e simplesmente não me encontro.
Às vezes busco-me até à exaustão, procuro na mente coberta de pensamentos vagos e listas intermináveis de coisas não prioritárias por fazer, um vislumbre do meu ser. Nestes dias acabo cansada e triste, com a sensação vazia de nada ter sido acabado, de nada ter sido planeado, de nada ter sido iniciado, de nada ter sentido.
Noutras alturas, finjo que não percebo, continuo o meu dia como se ele fizesse sentido, como se estivesse de facto aqui, a habitar o meu corpo.
Também é parte de mim, este não estar, mas de facto a sensação de não estar presente, de não ser achada por mim mesma é... um não estar angustiante!!!!
Quero emergir!!!!!
quarta-feira, agosto 02, 2006
Relações
quinta-feira, julho 13, 2006
Aurora

Conheceu-o quando tinha 12 anos.
Nunca antes tinha tido um namorado e não foi difícil apaixonar-se pelo menino de sorriso traquinas e olhos castanhos amendoados. O André tinha esse dom, criar paixões.
A paixão durava o mesmo tempo que os verões, e alimentava-se de olhares e sorrisos...
... até o dia em que o André correspondeu, e vários anos se tinham passado. Por motivos alheios, ele vivia debaixo de um barco, ela tinha acabado de chegar lá para trabalhar. Foram viver juntos. Ao mesmo tempo, Aurora não estava segura. André tinha outra paixão, que crescia a olhos vistos, cada dia dependia mais dela e por ela fazia qualquer coisa, perdia empregos, deixava de comer, roubava...
Mas o amor de Aurora era mais forte que a dependência de André. Ela queria ajudá-lo, sabia que ele seria muito mais, se ultrapassasse esta fase. Por isso, deixou passar as noites em claro, a falta de dinheiro, as dívidas, o medo que ele não vivesse para o dia seguinte. Deixou passar o seu cadastro no banco de Portugal, pelo roubo que ele lhe fez, avergonha de levar amigos lá a casa, a perda dos amigos. Deixou passar o seu amor próprio. Por que o amava.
"Deixa-o. Já foi demasiado longe. Não vale a pena!" A cada frase destas, Aurora abanava a cabeça. "Vocês não compreendem, eu amo-o."
A sua espera teve frutos. André largou a droga. Quis ser internado, tratou-se, tirou um curso técnico, arranjou um emprego. Mais uma vez, largos anos se tinham passado.
Algum tempo depois, André teve um acidente de trabalho que o deixou parado muitos meses. Não foi um problema, depois do que tinham passado, Aurora sentia-se pronta para tudo.
André melhorou. Voltou a trabalhar.
E um dia voltou para casa, triste, cabisbaixo, um olhar pesado.
Aurora não se desestabilizou. Estava pronta para tudo.
"Estou apaixonado por outra pessoa. Desculpa. Não planeei, mas acho que me vou embora."
Nunca estamos prontos para a Vida, não é?
Liguei-lhe. Estava à espera de revolta, pensamentos negros de "anos perdidos para nada". "Como estás?" - perguntei.
"Triste, desesperada, desolada. Mas acontece. Tenho de ter fé que as coisas vão melhorar, com ele ou sem ele. Seja como for, valeu sempre a pena"
E foi a primeira vez que eu SOUBE que a minha querida amiga soubera sempre o que estava a fazer.
Um enorme beijo e todo o meu amor para ti, querida Aurora.
terça-feira, julho 11, 2006
Criancices

Quando a R. me disse que iriamos coordenar a colónia à praia e "estar com os meninos" de tarde, a coisa não me soou má de todo.
"Nem tens de tomar banho" - diz-me. "É só olhar pelos monitores, que eles tratam do resto."
Esta do não ter de tomar banho pode soar estranho, mas tentem pôr uma algarvia com alergia ao frio nas águas da Caparica e depois digam qualquer coisa....
Enfim, vamos aprendendo.
7 horas da manhã - o despertador toca e quase salto da cama. "Já é de manhã?"
Preparar a mochila da filhota, para o pai não demorar 3 horas à procura das coisas. Encontrar o biquini, "eu sabia que o tinha deixado por aqui... mas onde?". Descobrir que a toalha de praia está molhada. Alternativa: a toalha com o Noddy. Porque não?
Pode ser que não se note.... Preparar a minha mochila. Fazer qualquer coisa para o almoço, que tenciono levar. Procurar a agenda, foi vista pela ultima vez nas mãos de uma criança que 2 anos que descobriu há pouco o prazer de... PINTAR! Vestir.
8h30 - Sair a correr, com um pessego na mão, a mala, a mochila e a agenda noutra. Entretanto, esqueço-me do almoço.
9h00 - Chego ao Bairro, onde o autocarro e 35 crianças me esperam, acompanhadas de 4 monitores de 17 anos e uma mulher que, I don't Know why, vai connosco.
9h45 - Praia. Enquanto tentamos descobrir um lugar agradável para estar, a mulher que, I don't know why, foi connosco, começa a falar mal de uma das monitoras e, de repente todos os monitores falam da mal da jovem. Acabo com a conversa e mando-os cuidar dos seus grupos de criança. Abro a mochila e tira a toalha. "HEEEEEEEE!!!! Toalha do Noddy!" - gritam uns quantos, enquanto gozam comigo.
Manhã - duas monitoras zangam-se. 4 crianças choram. 2 meninos correm pela praia e temos de ir atrás deles. Tentamos ir ao banho. Dois meninos são enrolados nas ondas, apesar dos 4 monitores dentro de água. Um grupo de crianças molha-me. Fico com alergia. Hora do lanche. Não querem aquele lanche. Lancham. Os 4 monitores zangam-se. Tento juntá-los para fazermos jogos. Ando a tentar agrupá-los. Consigo juntá-los todos. Começa a chover. Arrumamos as coisas, desenterramos algumas crianças que outros tinham enterrado até ao pescoço enquanto nos vestíamos, chegamos ao autocarro encharcados. Uma monitora chora cá fora e não quer entrar no autocarro, devido aos outros 3.
Hora do almoço - reunião com os monitores, tentativa de acalmar os animos e reorganizar as operações. Duas resolvem não se falar e fazer com que tudo passe por mim. Descubro que não tenho almoço. Vou comer uma tosta e um sumo.
15h - Ensaio de dança das meninas. Uma resolve não dançar por vergonha. A professora de dança passa-se. Tento trazer a menina de volta. Pego em 8 meninos que não têm nada para fazer e levo-os para o espaço lúdico doutro bairro, onde mais 10 crianças nos esperam. Querem dançar. Não gostam de dançar. Querem jogar computador. Competem pelo computador. Zangam-se uns com os outros. Chamam-se nomes. Tento acalmar os animos, conversar. Não querem conversar, querem que os outros se vão embora. "Não pode ser. Vai ser todo o verão assim" - digo. Olham para mim furiosos.
Vem a Irene dar-lhes o lanche. Não querem aquele lanche. Lancham. Competem pelo brinquedo do lanche. Choram. Tento acalmar os animos "Eu não nasci para isto." - penso.
17h - hora de ir ambora. Acusam-se de lhes terem roubado os brinquedos. Chamam-se nomes. Tento acalmar os animos. Ninguém se fala. "Amanhã vêm outra vez?" - pergunta uma ansiosamente. Abano a cabeça e digo que sim... (?)"Isto não é normal!"
Volto para o outro bairro. Recados para mim: 2 não vão no dia seguinte, uma monitora quer desistir, uma voluntária quer ir. Telefono para todos. A monitora resolve continuar.
17h30 - sento-me numa cadeira e digo "estou exausta". "De quê?" - perguntam as colegas. "Passaste o dia na praia e a passear."
Parece que sim, não é?? Agora é só ir para casa, ir buscar a filhota, dar-lhe banho, preparar-lhe o jantar, pintar com ela, dar-lhe o jantar, contar-lhe uma história, correr atrás dela enquanto me berra "não ké dumi", levá-la para a cama, contar-lhe mais 3 histórias, esperar que adormeça, preparar actividades para o dia seguinte, e começar tudo de novo...
Não há nada como as crianças!!!!








