terça-feira, dezembro 16, 2008

Eu, ele e a Marta - take 2

- Caloiro, de onde és? - tinha a certeza de que conhecia o seu rosto e achava que era do Algarve. Olhou-me em ar de desafio.
- De Massamá. - foi a resposta.
Virei-me e continuei no meio dos jogos que eram as chamadas "praxes". Só ao fim da manhã, quando eles se iam embora e o vi passar me lembrei.
- Olha! Eu também sou de Massamá! - era verdade. Naquela altura morava lá.

Voltei a recordar este episódio uma semana depois, quando ao passar por mim, num Centro Comercial, baixou os olhos e corou até às orelhas. Achei estranhíssima a reacção dele e a amiga que me acompanhava comentou:
- Hmmmm, viste como te olhava?

Mais um encontro sincronístico, no Bairro Alto, em que ele e os amigos entraram na discoteca onde eu e os meus amigos estávamos. Uma das amigas dele ofereceu-se para me "ler a sina", alegando que já ouvira falar muito de mim. Graças a um beijo no rosto que "falhou" (na minha imaginação ingénua, pois vim a saber mais tarde que a "falha" tinha sido intencional), acabei aos beijos com ele naquela estranha noite.

No dia seguinte, convidou-me para beber um café na Faculdade e fomos conversar sobre o que acontecera.
- Tenho namorada! - disse. Não era necessária a informação, a aliança de ouro brilhara, na mão direita, a determinada altura, na discoteca.

Não soube bem o que dizer. Eu não planeara o que acontecera, nem tinha intenções de ir para a frente com aquilo. Nunca tinha estado naquele tipo de situação. Num instante, deixara-me levar por um rapaz sedutor, por uma estranha emoção, pela cerveja e pela música. Agora tudo me parecia diferente. Conversámos durante horas e foi bom.

Gostaria de poder dizer que foi o início de uma linda amizade. Mas não foi assim. Porque ele continuava a olhar-me e a corar. E escrevia-me cartas. E pedia-me que não o olhasse "assim"...

Não sou uma santa. Não o provoquei, mas a verdade é que ele também me atraía. Numa outra noite, noutra discoteca, terminámos novamente aos beijos. E noutra. E por mais vezes que nos soasse à ultima vez, continuava a acontecer.

Os bilhetes aconteciam diariamente e os telefonemas duravam horas.
- Gostaria de te ter conhecido antes da Marta! - dizia-me. - Mas não aconteceu. E amo-a. Gosto de ti, atrais-me, não me imagino sem aquilo que temos, mas amo-a.

E eu entendia, sem entender. Porque não me imaginava naquela situação, a "beber aquela água que já jurara nunca beber", porque não estava apaixonada por ele, mas a verdade é que também não me imaginava sem o que aprendêramos a partilhar. Não eram só os beijos. Era, sobretudo,a cumplicidade.

Então, um dia, noutro Centro Comercial encontrei-o acompanhado. Soube quem ela era antes de se aproximarem. Bonita, um ar simpático, nada o tipo de rapariga que se pudesse "odiar".
- É a Marta, a minha namorada. - apresentou calmamente, enquanto era a eu a corar até às orelhas. - Esta é a Lita, uma colega da Faculdade.

Afastei-me a tremer, sabendo que nunca mais seria igual. A Marta já não era uma aliança dourada e fina, brilhando na mão direita do "meu caloiro". Era uma rapariga, de carne e osso!

Não voltámos a beijar-nos. Pouco depois, foi a Marta que acabou com ele, ironicamente, porque se apaixonara por outra pessoa. Conheci a faceta dele mais mulherenga, soube que eu não tinha sido a primeira "amiga", enquanto ele fora comprometido. Mas, ao contrário do resto das raparigas que lhe vi passarem pelas mãos, nunca achei que fosse um "filho da puta" .

As nossas conversas continuaram. Os telefonemas também. Ele assistiu a outras relações minhas com um ombro amigo e eu a muitas dele, com um sorriso complacente.

Voltou para a Marta,a quem, de uma forma estranha, amava. Ela era uma rapariga digna de admiração,de facto. Nunca me dei com ela, por motivos óbvios, mas poderia ser minha amiga, noutras circunstâncias.

Hoje, eu casada e ele separado, ambos com filhos, telefonamo-nos uma vez por ano, se tanto. Falamos das nossas circunstâncias. Mas ainda lhe sinto a cumplicidade de almas, que estranhamente nos aproximou. Poderia ter sido diferente, se não existisse uma Marta. Ou talvez não, talvez fosse exactamente da mesma maneira...

7 comentários:

Nelson A. Soares disse...

Oh, mas que bonita história essa... Qual será o take 3??? =OOOOOOO



Fico à espera... Adorei ler...


Stay Welll



p.s.: "Adorei ler..." Como se isso constituisse novidade... =)

Mi disse...

Bem, eu confesso que estou com uma falta de tempo descomunal e que quando vi o tamanho do teu texto pensei para mim que o deixaria para ler noutro momento, mas, começando, foi sempre a correr...
Com uma escrita muito simples e personificada, senti-me transportada para a história de uma forma tão natural que me fez lê-la uma segunda vez e a sensação foi a mesma.
Apetece-me perguntar se é (baseada em algo) real, mas... não digas, sabe bem assim.

Beijinho!

Safira disse...

o Destino, esse estranho poderoso...tantas Martas, tantos caloiros, tantas coisas que poderiam ter sido. Ou não...
Gostei do texto.
Beijinho

Sayuri disse...

Ai esses belos anos de experimentação na Faculdade...que saudades...acho que todas nós temos histórias com os nossos caloiros...LOL

Ianita disse...

Sim... o bom de termos mais anos, de terem passado 10 anos desde o 1º dia na faculdade, o bom de tudo isso, são as histórias... e são muitas...

Não foi porque não tinha de ser... mas enquanto foi foi bom... isso é o que importa!

Kisses

Patrícia disse...

Como li por aí num lado qualquer...

"Se tivesses ficado, teria sido diferente"

Lita disse...

Nelson, obrigada! Quanto ao take 3, virá, um dia destes, embora já tenha sido falado em muitos post...

Mi, obrigada! E... eu não digo nada... :)

Safira, é o destino trás-nos sempre muitas ruas e a interrogação do que estaria por detrás daquelas que não seguimos.:)

Sayuri, anos bem intensos, lembras-te?

Ianita, concordo. É a forma como vivemos esse presente que nos proporciona memórias destas!

Patrícia, é isso... acho.